sexta-feira, 3 de junho de 2011

Aguias vertiginosas


Não raramente nos percebemos em contemplação orante da Natureza com que Deus nos brinda cotidianamente. Sabemos identificar na perfeita ordenação, inconcebível à razão humana, a organização benevolente do Criador que deixa nos pormenores da criação as Suas marcas, quais impressões digitais do artista em sua obra. Segundo o grande Galileu Galilei , Deus nos deixaradois grandes livros para que O conhecêssemos, a saber: o Livro das Sagradas Escrituras e o Livro da Natureza. Hoje, contudo, quero deter-me num especial exemplar daqueles inúmeros que Deus pode inspirar-nos: a águia. É, indiscutivelmente, encantador contemplar com que graciosidade e beleza as águias lançam-se ao voo. Sua aerodinâmica e domínio da técnica de voar são capazes desustê-la sem que nem sequer utilize o impulso proporcionado pelo constante bater de asas: basta deslizar nas correntes de ar que se apresentam, seja para a locomoção, seja até mesmo a fim de permanecer parada em pleno voo. Sua astúcia, sagacidade e visão aguçada fazem da águia uma precisa e bem sucedida predadora; avistando ao longe seu alimento e focalizando sua atenção na obtenção do mesmo, consegue altíssima probabilidade de sucesso em sua intenção.
Uma antiga história, por muitos considerada lenda, conta-nos que a águia, por volta dos quarenta anos de vida, retira-se a uma montanha alta a fim de proceder-se numa metamorfose que renovará todas as suas penas, garras e bico. Ao fim dos quase 150 dias de isolamento, ela se lança em queda livre, num mergulho profundo, objetivando desprender-se das últimas penas que a mantinham vinculada àquela vida pré-metamorfose, podendo viver cerca de trinta anos após este processo.
Entretanto, caríssimos, imaginemos a tortura que seria uma águia que desenvolvess vertigem ao voar... Como   conceber a ideia de uma águia, criada para o voo, sem dúvidas dependente deste artifício para sua sobrevivência, que não quisesse voar? Ou como entender que uma águia possa não ter vontade de voar? Pois bem, somos, muitas vezes, esta águia! E se o leitor me permite recorrer a mais um exemplo do bondoso desígnio criador de Deus, devemos adentrar a Escola de Maria para entendermos nossa relação estreita com a vida da águia que agora recorremos como símbolo.
Nossa Senhora, a Imaculada Conceição, preservada de todo o pecado original, é sinal presente de que a nova criação em Cristo necessita retornar àquela santidade que lhe é própria. “Deveis ser perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Deus nos quer santos: nesta atmosfera fomos criados e, pela livre deliberação de nossos primeiros pais, corrompeu-se aquela intimidade que tínhamos com Ele. Pela liberdade, o afastamento... Pela plena realização da liberdade de Cristo, em entrega total por amor, a reconciliação numa Nova e Eterna Aliança.
Hoje não é incomum escutar de nossos concidadãos relatos de sua repulsa à concepção de santidade que deles exigiria uma renúncia de seus próprios interesses, a fim de coordenar, desejos e impulsos, numa perfeita relação de intimidade com Deus. A Santidade piedosa parece ter, para estes insensatos, perdido seu valor, na medida em que nos tornamos “deuses” de nós mesmos, numa sempre busca por satisfação de nossas vontades, em detrimento de qualquer outra. Tornamo-nos águias vertiginosas, para as quais não só o medo de voar é presente, mas toda e qualquer lembrança desta característica vital, que nos faz alcançar altitudes inimagináveis, geram em nós o desprezo. A originalidade da criação santa – “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31) –, tornou-se, para o mundo contemporâneo, escândalo e doença. Neste aspecto, necessitamos recorrer à águia para nos entendermos, passíveis da indispensável conversão, e desejosos de voos sempre mais altos nas asas de Deus. E, ao analisarmos a história daquela santa Mulher, constatamos o precioso ensinamento de quem soube viver santamente, modelando sua vida sempre pela observância dos mandamentos e desígnios de Deus para si. O Catecismo da Igreja Católica assim nos ensina: “A Virgem Maria realiza da maneira mais perfeita a obediência da fé. Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazida pelo anjo Gabriel, acreditando que ‘nada é impossível a Deus’ (Lc 1, 37) e dando seu assentimento: „Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1, 38). [...] Durante toda a sua vida e até sua última provação, quando Jesus, seu filho, morreu na cruz, sua fé não vacilou. Maria não deixou de crer „no cumprimento‟ da Palavra de Deus” (CIC 148-149) . Pois bem, caríssimos, saibamos invocar com filial devoção aquela que a Tradição chama de Vaso honorifico... Vaso do mesmo material do qual somos nós feitos... Digno de honra, pois soube a Virgem Santíssima dispor sua vida a serviço e por amor de Deus. Cursemos as belas lições desta Escola na Fé, auxiliados pela Mãe do Amparo e instruídos pelo valioso ensinamento de São Bernardo: “Busquemos a graça, mas busquemos por intermédio de Maria! Por ela acha-se o que se busca e não se pode ser desatendido”.
Rafael de Oliveira Archetti

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